Fim de tratado entre EUA e Rússia, New START limitava ogivas e armamentos das duas maiores potências nucleares do mundo
Tratado New START, que limita ogivas e armamentos das duas maiores potências nucleares do mundo, expirou nesta quarta (4). Segurança internacional tende a se tornar mais incerto e com países dobrando aposta nas ogivas atômicas.
Os Estados Unidos e a Rússia, as maiores potências nucleares do mundo, estão agora sem limites de produção e posicionamento de ogivas atômicas, após o vencimento do tratado New START na quarta-feira (4). Essa nova realidade, inédita no cenário pós-Guerra Fria, vai acelerar a corrida nuclear global e joga o mundo no desconhecido.
Considerado elemento vital para prevenir uma escalada nuclear pelo mundo, o New START era também o último tratado do tipo entre EUA e Rússia — os dois países já tiveram outros acordos nucleares, mas todos foram desfeitos.
O vencimento do tratado, ocorre impulsionado pela ascensão da China como potência nuclear global e consolida o fim da lógica de não proliferação de armas nucleares que predominava no mundo desde o fim da Guerra Fria.
Nessa nova realidade, o descompasso declarado entre as maiores potências nucleares escancara uma corrida armamentista nuclear mundial que será encabeçada por EUA, Rússia e China em um contexto de desconfiança mútua no panorama geopolítico global e que deve causar uma proliferação de ogivas pelo mundo nos próximos meses, segundo os especialistas.
“O fim do New START remove o último freio institucional que ainda continha essa corrida armamentista e, com isso, escancara e acelera uma dinâmica de competição nuclear que já estava em curso. O New START era um pilar, e sua ausência muda o ambiente estratégico mundial”, afirmou ao g1 o professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard Vitelio Brustolin.
Segundo Brustolin, o New START “administrava” a rivalidade entre EUA e Rússia e conferia um grau mínimo de confiabilidade entre as potências. Sem ele, cada lado precisará assumir o pior cenário para planejar suas forças militares e nucleares.
Mesmo assim, o Tratado de Proliferação Nuclear (TNP) já seria suficiente para evitar uma corrida nuclear, segundo Brustolin. O problema é que o TNP não é respeitado: a China, por exemplo, expande rapidamente seu arsenal à revelia dos termos do tratado.
A China, inclusive, é o que fator que mudou a lógica e fez os EUA deixarem o New START “morrer”, segundo os especialistas. O movimento de Washington indica que a Rússia já não importa mais tanto quanto antes e também não tanto quanto Pequim neste momento. Os EUA, inclusive, estão focados na contenção do país asiático, que nos últimos anos se colocou como superpotência mundial.
O presidente norte-americano, Donald Trump, defende que a China precisaria estar incluída em qualquer novo acordo de controle de armas nucleares. O presidente chinês Xi Jinping, por sua vez, alega que o país não precisaria ser incluído em um tratado do tipo porque EUA e Rússia já levam vantagem.
Com esse impasse, fica evidente a entrada do mundo em uma “3ª Era nuclear”, com um aumento de arsenais sem limites em que nenhum líder mundial confia no outro.
Tratado New START: o último limitante dos arsenais de EUA e Rússia
O tratado New START foi firmado em 2010 pelos então presidentes Barack Obama, dos EUA, e Dmitry Medvedev, da Rússia, e serviu para estabelecer diversos limites e mecanismos de transparências entre os dois países em busca de deter uma escalada nuclear. Entre as principais regras impostas pelo acordo estão as seguintes:
Posicionar no máximo 700 meios de lançamento de ogivas nucleares, entre: mísseis balísticos intercontinentais em terra, mísseis lançados por submarinos e bombardeiros pesados capazes de transportar armas nucleares;
Ter no máximo 1.550 ogivas nucleares prontas para uso imediato
Ter no máximo 1.550 ogivas nucleares prontas para uso imediato
A Rússia tinha ao menos 5.429 ogivas nucleares em seu arsenal, enquanto os EUA tinham ao menos 5.177 ogivas em janeiro de 2025, segundo dados do levantamento mais recente do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri), referência em armamentos nucleares.
Além disso, outros termos do New START incluíam:
-Manter armas nucleares russas e norte-americanas a uma distância segura, que demore no mínimo 30 minutos para atingir o outro país;
-Até 18 inspeções rigorosas por ano de uma equipe de peritos ao arsenal nuclear de cada país;
-Compartilhamento mútuo de dados sobre arsenal nuclear a cada dois anos;
-Notificações prévias ao lançamento de mísseis balísticos intercontinentais;
-Compartilhamento mútuo de informações sobre movimentações de armamentos nucleares.
Apesar de ter parado de ser cumprido integralmente pelos dois países ao longo dos anos, o New START teve um papel efetivo e importante para limitar os arsenais, segundo Vitelio Brustolin. Tanto os EUA quanto a Rússia deram indícios de que respeitaram até o fim do acordo o limite de no máximo 1.550 ogivas nucleares prontas para uso.
“Sem as medidas de verificação do New START, haveria uma redução no conhecimento dos EUA sobre as forças nucleares russas. Com o tempo, teríamos menos confiança em nossas avaliações das forças russas e menos informações para embasar decisões sobre as forças nucleares dos EUA”, afirmou o Departamento de Estado no documento.
A Rússia lamentou o fim do New START, porém disse estar pronta para um “novo mundo” sem limites para armas nucleares.
Outros acordos de controle de armas nucleares que os EUA e a Rússia tiveram nas últimas décadas, que já haviam sido extintos antes do New START, foram:
SALT I (1972) : congelou a construção de novos mísseis balísticos intercontinentais e submarinos com capacidade de disparar esses mísseis com ogivas nucleares;
START I (1994): redução real de ogivas nucleares, que desmantelou os arsenais estratégicos soviéticos remanescentes da União Soviética;
SORT (2002): limitou número de ogivas operacionais e serviu como transição para o New START.
📝 Fonte: G1
📸 Reprodução/Internet/Google
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